Quinta-feira, Abril 09, 2009


Carta para uma língua seca

Todas as suas palavras não me transmitem nenhuma coisa boa e mesmo quando todas as vacas falarem as suas palavras ainda serão menos valiosas que todos os mugidos das que continuarão sem falar. Porque tua língua é só tua, e quem fala demais dá bom dia a cavalo. Hipócrita de uma figa. Não me conhece e jamais chegará perto. Por isso, continue inventando mitos. É você que fala de mim, não o contrário. Puta hipócrita. Se eu te desse um conselho, dir-te-ia para que te coçasses a ti mesma até a carne viva essa tua triste carne sem apelo. Puta.

Barcelona, 8 de abril de 1500.
Marquês de Avelã.

.

Terça-feira, Dezembro 16, 2008

um pássaro negro cruzou o meu caminho
com a asa quebrada cruzou o meu caminho
parecia um velho mei’manco e gordinho
eu chutei o pássaro do meu caminho
era tarde
era um sonho
se eu bem me lembro
eu acho que era

°

Quinta-feira, Dezembro 11, 2008

Stanley Kubrik faria melhor

Luís Fernando Carvalho não gosta de Machado de Assis. O diretor da nova Hoje É Dia de Maria leu errado, ou nunca leu, ou leu de mau gosto, forçado por algum professor clássico de literatura, o clássico chato, coisa que Machado de Assis não é, chato como foi o primeiro capítulo da nova pretensiosa obra pop “inovadora” da Globo, primeiro capítulo que eu vi e me fez não querer ver os demais. Machado de Assis não sofre de preconceito, não precisa de “inovação”, não precisa que as novas gerações o descubram dessa maneira forçada, cinema mudo francês, circo nordestino, teatro pop, clip da Marisa Monte, coisa nada condizente com o caráter de seus personagens e de sua narrativa sóbria e ébria cuja graça não é forçada e existe sim, na ironia sutil, no mau-humor disfarçado em prol da cordialidade recalcada e mal assumida de suas crias e de todos nós, brasileiros de sol na cabeça e problemas. Talvez e muito mais o lula molusco seria mais um de seus personagens, não o bob esponja, e as caras e bocas do chato Michel Melamed chegam perto das expressões de terror e alegria do querido desenho animado, o chato Michel Melamed no papel de um Bento quase mágico um magro pingüim de geladeira, longe do velho triste e só e pesado, do adulto angustiado que eu li.

E Capitu não é uma puta espanhola. Seguindo essa linha provavelmente Escobar será um puta Don Juan mexicano. Quem lê Dom Casmurro provavelmente não vê os personagens daquele jeito fantástico Dia de Maria. É só uma história, pelo amor de deus. A graça do livro fica onde? Na história. À parte as velhas desculpas de que é uma adaptação, de que o livro sempre é melhor que o filme, desculpa aliás sem efeito e sempre desmotivada, porque é injusto, todo mundo vê o filme que um cara fez sobre um livro que todo mundo leu, tá tudo lá, de mão beijada, só que ninguém lê do mesmo jeito, com o mesmo nível de interesse e atenção. Luís Fernando Carvalho pode falar o que for como desculpas ou motivos para fazer o que fez, que foi tornar chato um dos livros mais intrigantes e insolúveis do rock. Mas não alegar uma tentativa de aproximação de Machado de Assis com os leitores mais jovens, coisa que não é a TV que vai fazer. Se a “nova geração” tem preconceito, azar dela. Pena a gente não sente de ninguém. Quem disse que os “novos leitores” não lêem Machado de Assis? Se os “novos leitores” não lêem Machado de Assis, a culpa é de Machado de Assis, e ele tem que pagar vendo como Brás Cubas do além-túmulo sua obra-prima ser transformada num videoclipe? Se a “nova geração” não lê Machado de Assis, meu caro, depois de ontem é que ela não vai ler mesmo.

Eu gosto de livros e leio. Gosta do prazer de descobrir a história, de perceber como ela é contada, dos seus labirintos, portas, corredores, bombas e fantasmas. Filmes, seriados, audionovelas, mini, micro séries, aí é outra coisa. Quero ver Watchmen. Podem mudar o final no filme que lá, nos quadrinhos, não vai mudar nunca, e o prazer com que eu li tudo e cheguei com sede no desfecho jamais me será roubado. Um diretor de adaptações geralmente é um fã dentre mil que teve a sorte, a oportunidade e a vontade de fazer isso. Esse cara do Dom Casmurro não. Ele cede a um outro motivo, a uma manutenção de uma linha de série da Globo que começou com O Auto da Compadecida e teve esse filho de Maria e a Pedra do Reino, mas não ao gosto pela literatura imortal de Machado de Assis. Forçação de barra mesmo. Dom Casmurro não é tragicômico. Dom Casmurro é um cara chato que desconfia da mulher, talvez com razão, um cara que quase mata o filho com uma xícara de café envenenado, um mal resolvido sentimental. Há trechos que te fazem sorrir, sim, como há trechos que te fazem tenso, sentimentos que vêm tão naturalmente quanto as linhas de Machado de Assis. É, tai o problema. Luís Fernando Carvalho não é Machado de Assis. Então deveria ter no mínimo o respeito pelas imagens e pelo clima do livro, pelo caráter dos personagens de Dom Casmurro. Ano que vem faz 110 anos que o livro foi lançado. O papa é pop, não Machado de Assis. Essa foi a declaração mais besta que já li sobre meu autor favorito.

Quinta-feira, Novembro 13, 2008

uma caras especial com as mais recentes execuções do mundo islâmico
nas mais brutais noites de lua nas brancas abóbadas descomunais
de urbanos taj mahais testemunhas da justiça divina numa terra de iguais
sin carne, en el hueso, todo mundo é igual, pensa o governo
que só permite fotos em close mas garante a tridimensionalidade da publicação
um crânio uma abóbada a ponta da igreja desterro
são todos iguais
é assustador
naquele lugar
os aparelhos funcionam
mesmo fora da tomada
e meus pais dormem no quarto não é nada demais

.strangers in the night.

Sexta-feira, Outubro 24, 2008

Tudo começou porque eu detesto o jeito que essas pessoas olham pra mim. Elas não têm esse direito. Elas olham e julgam suas roupas, seu cabelo, sua cor, o jeito que você anda, seus sapatos, seu cheiro. Da cabeça aos pés, eu nunca me senti a salvo, nunca me senti em paz, nunca me senti sozinho. Também odeio café com leite e ônibus. Você sabe, aquele tipo bem sociável, de boa aparência, papo familiar, o cara que pensa que te conhece e pensa que tem permissão pra te abordar no meio de uma viagem de ônibus na volta pra casa, cansado, calor, e você olha pro vidro da janela sem querer disfarçar que não quer papo mesmo, e você vê pelo vidro da janela o animal se aproximando com um sorriso de quebrar dentes, E aí? Tá trabalhando? O que ele tem a ver com isso? Quem autorizou essa invasão? O direito de propriedade deve abranger a defesa do espaço privado de um ser humano encerrado em seu próprio corpo (e nos limites que lhe convier) em qualquer espaço público, considerada primitivamente a vontade do ser humano em questão de entrar ou não em contato com outro ser humano. Tu não tem nada a ver se eu tô trabalhando ou vagabundando, seu filho da puta. Tô, tô trabalhando, eu trabalho sentada aqui atrás desse ônibus todo dia, seu filho da puta. Ou simplesmente viro a cara. É, olhei bem séria pro veado e me virei num resmungo. O sussurro das coroas na cadeira de trás, o olhar de reprovação da gordinha de rosa e o mal educada que ele me falou são bem melhores do que o que eu realmente desejo pra esse tipo de gente.

Marta Larbatxia, Conversas na Beira-Mar, 2008.

Segunda-feira, Julho 14, 2008

çá vianá mon amour

sexta feira às cinco e polka da tarde
num subúrbio azul e quente
bem perto das cabeças e das calçadas
uma nova ciência me faz pensar em você
que talvez longe num outro nordeste
pensando talvez num novo méxico
leve minha ciência em sua bagagem
quando faça maquiagem me veja em você
que te vejo
num grito
absurdo de dentes
guria em balanço de praça

Quarta-feira, Junho 18, 2008




nicarágua e os processos cósmicos
da separação física da alma
representada na pele
e as balelas universitárias
da ideologia anteposta
à prática da vida na terra
pero
la plata não é meu guia
como cachorro quente
o souza
e bebo no jair
pero
nunca comi mulher
pelo diñero que nunca tive
estocolmo fjca na suécia
estou onde e como
eu mesmo quis
tem sonho que dá medo
tem sonho que dá o mundo
minha ética é
mia’stética eu sinto
eu sinto eu sinto
eu sinto muito por vocês
mas eu não olho mais pra trás
pros lados mas tomo cuidado e leite quente
no café
antes de sair de casa e ir pros olhos da rua
os olhos brasil boca
juniors
sabe, casamento não é fundação de empresa
banda não é bando
prostituição por nada promiscuidade musical
diz barata
tipo gangue é divertido
brasil país do cover
do futuro ninguém vive
tenho um presente pra vocês
curditão meu dedo médio
status statues states
istátua!
quem ficar parado
por mais tempo
ganha

º

Quarta-feira, Maio 28, 2008

...só eu sei quem eu sou
não me importa qual a cor
que você me pinta...

video

Sexta-feira, Abril 04, 2008

meu amor tem cheiro de camisa nova prova chá e faz janela ser jardim meu amor entra
comigo pela porta espera a chuva assume o mundo até o fim me faz
ver tamanho quintal uma estátua boçal no terraço que é sábado de manhã

quando tua voz grossa de cigarro me acordar
e o latido do animal
eu ainda vou parir um serafim

º

Marta Larbatxia, Salto Alto, Pernas Abertas e As Canções Que Ninguém Nunca Vai Pedir, coletânea, 1997 ou 2005. Enfim.

Sexta-feira, Março 28, 2008


para mestre pato. por melhoras totais.